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À fim de sobreviver…

Longe dos slogans e frases de efeito, das teorias e dos conceitos de luta. Caminham. Entre becos, vielas, ladeiras e passarelas. No atraso do horário da creche, no fim do saldo na conta, onde o gás afoga a boca do fogão. Sem duvidar da vida, mesmo remando contra a maré, seguem elas. Filhas de filhas e netas do descaso e violência do patriarcado e do estado, Marias, Marlenes, Luzias e Lourdes.

À deriva de qualquer benefício, amanhecem em esperança e anoitecem em cansaço. Na A BANCA aprendemos a respeitar os processos e histórias, aprendemos a escutar.

Longe do romantismo do clichê “a favela venceu” essas mulheres aprendem a sorrir entre si, para os seus, nos sambas e forrós. De uma maneira ancestral, quase que orgânica, suas redes são de apoio, de chás e boldos. “Pode ficar com minha cria hoje”, “Alisa meu cabelo”, “Faz uma trança na menina”, “Cuidado com seu menino”.

São frases, momentos, amizades.

Falar da mulher da periferia, é falar da concepção ancestral de comunidade e criação, cada uma, uma estrela, todas uma constelação. Força, vontade, desejos, sonhos, lágrimas e conselhos. Se fosse possível em uma lauda dizer sobre, talvez fosse melhor resumir em uma única palavra “AMPARO”.

Amparo do olhar, da fala que acolhe, dá bronca do caminhar por qualquer lugar, da luta que se inicia.

Essas pessoas que lotam o transporte público, que criam, alimentam, e ainda colocam na cama todos os que movimentam a sociedade, talvez tenham em comum o medo da cria numa cova rasa e as portas abertas para quem não tenha onde ir.

De macumbeiras à beatas, das vaidosas às recatadas.

O confronto é sempre em busca de sobreviver, muito distante de viver, no sentido literal. Iniciam e findam suas jornadas na esperança de que os dias melhorem, de que a vida melhore.



A mulher na periferia, mesmo com sua rotina isolada, sem definições, faz parte de uma linha histórica e tênue entre vida e morte. Zeladoras dos lares, das baianas de tabuleiros às gerentes bancárias, a gana feminina é que faz afastar a má sorte e todo dia se livrarem da sujeira social pra logo ali na conquista das contas pagas, panelas cheias e a cervejinha do fim de semana respirarem o feminino ar de vitória.

Para entender esses seres, não é possível ler tudo isso, mesmo sendo fundamental. Como se explica a insônia da incerteza, ou do cansaço, como se descreve a alegria do filho formado ou da reforma custosa na cozinha ou telhado?

São deusas, rainhas, guerreiras. Incapaz de serem previsíveis, gingam, sambam e transpiram suas razões e motivações.

Das anciãs às pequenas que estreiam na vida adulta, seus olhos, olhares, miram sempre o mesmo alvo. Obrigada a cada mana que por aqui passa e compartilha muito do seu sonho, do seu olhar para o futuro, de se auto acreditar. Daqui desejamos um mundo possível para todas nós, com a possibilidade de cada uma ter seu lugar ao sol.


Texto por: Fabiana Ivo

ilustração: @lucas1lima

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